terça-feira, 21 de julho de 2009


Tomei susto na primeira vez. Nunca, repito, nunca antes tinha visto um pedinte na porta do meu edifício. A imagem lembrava a minha cidade natal, mas depois de lá ter saído jamais tinha visto pessoas assim. Não sei se fosse pelo susto, ou pela raridade de ver tal cena: sujeito sentado no chão sujo, costas encostadas na parede pintada de lodo, que me foi interessante. Era claro que algo tinha que fazer, quem sabe oferecer um prato de comida, um copo de suco, um banho, alguma muda de roupa. Optei por algo concreto.


Sou poeta e jornalista, trabalho simples, escrevo para suplementos culturais de um jornal de pequena influência. O soldo não é lá essas coisas boas da vida, porém sustenta-me e paga meus lazares pequenos: andar na praia, ver nascer do sol, alimentar pombos, dormir nu. Mas sim, de volta a minha manhã, saia para andar como de costume, passear, olhar andares e pernas. É o ócio do ofício da criação, ter inspiração. Então eis que a cena surge, ele era de feição boa, pedinte por profissão como se ver na cara, simpatizei e aí então surge a dúvida: o que dar-lhe? Algo concreto? Roupa, comida, dinheiro?


Era um pedinte engraçado, me viu e nada falou, olhou-me como quem sabia exatamente o que estava fazendo e pra quem estava olhando. Eu, culto como sou, dei meia volta e de volta no muquifo peguei e desci com Drummond, Vinícius, Pessoa e Gullar. Trouxe-lhe o melhor que havia encontrado, entreguei-lhe sem falar nada, meu braço estendido mostrava uns 4 exemplares, ele educadamente estendeu seu braço também e acolheu aquelas obras.


Da segunda vez, o susto não foi grande, pensei que ele teria ido embora, trocado de local de trabalho, arranjado algum abrigo. Mas não, ele continuava ali, sentado da mesma maneira que da primeira vez. Dessa vez fui mais prático, nada de tantos pensamentos, subi mais uma vez e trouxe-lhe comida, suco, e dessa vez, um pouco de Espanca. Os primeiros livros pareciam ter sidos apreciados, estavam com aquela cara de terem sidos folheados e lidos. Segui meu percurso rotineiro, direto para o jornal entregar meu suplemento e receber alguma coisa que pagasse luz. Chegando em tal local a surpresa: de mim não precisavam mais nada, meus serviços seriam desnecessários tendo em vista que cultura não era bem apreciado pela população. Puto que fiquei, fui andar entre árvores e voltei pra casa.


Da terceira vez, nem ao certo sabia se ele estaria lá, já desci com tudo: comida, suco, roupa e um punhado de escrituras minhas mais uma indagação na cabeça. Seria nosso primeiro diálogo. Entreguei-lhe tudo que havia trazido, e ali sentei por alguma medição de tempo que é me falha na memória.


Por fim como quem não tinha mais nada o que fazer disse-lhe meu questionamento: porque tanto mendigas, sempre no mesmo local e sempre da mesma maneira? E agora você, leitor, qual resposta acharia que nosso companheiro nos daria? Surpreso fiquei com tanta verdade que me vinha aos ouvidos naquele momento: Pela mesma razão que vocês, poetas, escrevem poemas, batem à porta dos corações alheios e sempre mendigam amor.


Subi enfurecido por dois motivos, primeiro porque verdade era, pura, branca, gelo. Segundo porque eu? Logo eu? Que me achava senhor amo do entendimento das coisas e dos amores, fui desbancado por um pedinte, que só diferenciava de mim nas roupas, na comida e no suco.

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